Queda nos índices de vacinação aponta que retorno do sarampo era esperado

Taxas de cobertura vacinal decaem há três anos no país e polêmicas sobre a eficácia das vacinas contribuem para novos surtos

Aqueda na cobertura vacinal é uma das explicações para o retorno do sarampo no Brasil. Somente neste ano, o país obteve a confirmação de mais de dez mil casos, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 28 de novembro. Ao todo, são 12 óbitos pela doença concentrados em três estados: Roraima, Amazonas e Pará.

(Fonte: Ministério da Saúde)

No Rio Grande do Sul, segundo o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), até 8 de novembro, foram confirmados 45 casos. A capital dos gaúchos apresenta o maior número de contração da doença: 38 casos registrados de sarampo.

(Fonte: Centro Estadual de Vigilância em Saúde — CEVS)

A presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, acredita que um dos principais fatores que justificam a queda dos índices de vacinação é a falta de percepção do risco. “Hoje, é comum as pessoas associarem a falta de registros do sarampo no Brasil com o fato de não haver mais a necessidade de vacinar”, esclarece. “A vacinação deixou de ser uma prioridade para as famílias brasileiras”, salienta a presidente.

A falsa sensação de segurança em relação ao contágio de sarampo também é apontada como uma das explicações para a queda nas coberturas vacinais pelo médico da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS), Érico José Faustini. Ao analisar os índices de vacinação contra o sarampo do Estado, ele lembra que as doenças infecto-contagiosas preveníveis pelas vacinas- como é o caso do sarampo — , constituíram-se no passado como importantes causas de morbidade e mortalidade infantil. “A criação das vacinas e o controle das patologias resultaram na falta de memória dessas doenças para as novas gerações. O esquecimento, aliado a informações sobre os efeitos colaterais mínimos das vacinas e a propaganda contra à vacinação, talvez explique a queda nas coberturas vacinais”, esclarece o médico.

O caminho para o retrocesso

Diante do alto número de casos de sarampo no Brasil, questionou-se o motivo pelo qual a doença — que já havia sido eliminada das Américas em 2016 — retornou, de forma tão expressiva, ao país. A partir de um levantamento realizado pela equipe investigativa da Beta Redação, sobre as taxas de coberturas vacinais dos últimos oito anos, percebeu-se que a partir de 2015 houve uma queda considerável nos índices de cobertura vacinal.

Durante três anos consecutivos — entre 2015 e 2017 — , o número de pessoas vacinadas em diversos estados brasileiros, incluindo o Rio Grande do Sul, passou longe do esperado pelo Ministério da Saúde, que desde 1990 prevê a imunização de 95% das crianças menores de 5 anos contra o sarampo. Neste período, o ano de 2017 é considerado o mais crítico, quando houve incidência de surto da doença na Europa e também na Venezuela. À época, tanto o Estado, quanto o Brasil atingiram 86% da meta de cobertura vacinal.

Já neste ano, para que os números fossem favoráveis, e devido a quantidade de casos que se espalharam de norte a sul no país, os estados que não haviam alcançado a meta de imunização foram orientados a prorrogar suas campanhas de vacinação. Desta forma, todos os estados que apresentam casos confirmados de sarampo alcançaram a meta mínima de cobertura vacinal, com exceção do Distrito Federal, que alcançou o percentual de 90,36. Em compensação, o Amapá foi o primeiro estado a atingir 100% da meta de imunização.

Na capital dos gaúchos, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, 97,6% das pessoas infectadas são consideradas não vacinadas ou não tinham o registro de vacinação. A faixa etária mais atingida é a de jovens entre 15 e 29 anos, representando 73,4% das vítimas.

Porém, dados apontam que, desde 2011, novos casos da doença já eram esperados no país. A presidente da SBIm, Isabella Ballalai, afirma que surtos de sarampo eram previstos devido à importação do vírus. “A principal explicação para este retorno do sarampo, além, claro, das pessoas deixarem de lado a imunização, é a importação de vírus da Venezuela, por toda a questão política e territorial que o país está enfrentando e também por ser fronteira com Amazonas e Roraima”, explica a médica.

O Ministério da Saúde informa que os surtos ocorridos esse ano estão relacionados à importação, já que o genótipo do vírus (D8), que está circulando no Brasil, é o mesmo que circula na Venezuela, país com surto da doença desde 2017. Há também a confirmação de alguns casos isolados — não apenas por conta de importação — no país.

A baixa nos índices de vacinação pode estar associada tanto a indivíduos, quanto ao serviço de saúde oferecido à população, conforme afirma a chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica do CEVS, Tani Ranieri. O número de profissionais atuando, muitas vezes com sobrecarga de demandas, execução de múltiplas tarefas e falta de capacitação são fatores que Tani destaca para que o Calendário Nacional de Vacinação não seja seguido à risca pelas famílias. “Acho que a prática de conversar com os pacientes, recomendar e reavaliar a situação vacinal está muito fragilizada”, confessa a profissional.

Além disso, ela também acredita que o problema está relacionado ao registo de doses aplicadas no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI), que há anos passa por reformulações. “Até o ano passado, era utilizado um sistema de desktop, em que era necessário fazer uma transferência de arquivos. Ao mesmo tempo, haviam muitas falhas no sistema, fazendo com que, às vezes, o arquivo fosse corrompido e, assim, não era possível subir os dados para a plataforma do DATASUS, deixando o sistema de informações desatualizado”, explica Tani.

Já a presidente da SBIm, Isabella, traz outro argumento que pode contribuir para a queda no índices de vacinação: a composição familiar. Geralmente, as mulheres são as encarregadas da tarefa de levar as crianças para vacinar. A médica explica que, hoje, todos os familiares trabalham para o sustento do lar, inclusive as mães e, como não há uma divisão da responsabilidade, torna-se complicado sempre a mulher ter que faltar no emprego para levar à criança para receber a vacina. Em sua opinião, também, seria necessário ajustar o horário das Unidades Básicas de Saúde (UBSs). “Se os postos de saúde ficam abertos em horários comerciais, e nessas horas as mães estão trabalhando, como elas irão vacinar os seus filhos?”, questiona Isabella.

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