Infecções por HPV caem a zero entre meninas de 16 e 18 anos na Inglaterra graças à vacinação

Public Health England anunciou que em 2018 não houve casos novos de papilomavírus tipo 16 e 18, responsáveis por 70% das ocorrências de câncer de útero: expectativa é de grande redução no número de mulheres com a doença nos próximos anos

A luta contra o câncer de colo de útero está sendo vencida na Inglaterra. Os vírus HPV tipo 16 e 18, causadores de cerca de 70% dos casos da doença no mundo, estão em vias de ser eliminados no país graças à vacinação e a um programa de rastreio. O departamento de Saúde Pública (Public Health England, PHE) anunciou neste mês de janeiro que conduziu uma pesquisa em relação a infecções em mulheres entre 16 e 24 anos sexualmente ativas, inciada antes do início do programa de vacinação contra o papilomavírus (HPV), em 2008. Naquele ano, cerca de 15% das mulheres entre 16 e 18 anos estavam infectadas com o HPV 16/18. A prevalência do vírus caiu para 2% no período analisado entre mulheres de 16 a 18 anos que foram vacinadas aos 12 e 13 anos. Mais: em 2018, exatos 10 anos após o início do programa de vacinação contra HPV no país, não houve nenhum novo caso na faixa etária. A expectativa é que haja, nos próximos anos, uma enorme redução nos casos de câncer de colo de útero e outros tipos de cânceres (anal, de pênis, de orofaringe, de vulva e de vagina) em consequência da imunização. Lembrando que o câncer de colo de útero é o quarto mais frequente entre mulheres, com 570 mil novos casos e 311 mil mortes em 2018, segundo informações da Organização pan-Americana da Saúde (OPAS), da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O declínio sustentado da infecção pelo HPV entre mulheres de 16 a 24 anos é mais uma indicação de que o programa de vacinação contra o HPV de alta cobertura na Inglaterra certamente vai levar a grandes reduções no câncer do colo do útero no futuro. Continuaremos a monitorar infecções dos tipos de HPV presentes na vacina e de outros tipos de alto risco. Além disso, existe uma vigilância para avaliar o impacto da vacinação no cânceres cervicais no devido tempo”, conclui o estudo.

– A vacina contra o HPV é uma vacina anti-câncer. E não só o de colo de útero. O HPV é responsável pela maior parte dos casos de câncer de pênis, canal anal, vulva, vagina e orofaringe. E é a doença sexualmente transmissível mais comum em todo o mundo. Mais de 80% da população adulta tiveram ou terão contato com o HPV em algum momento da vida. Uma parcela desenvolverá infecções persistentes e, posteriormente, câncer. Mas são cânceres que podem ser perfeitamente prevenidos pela vacinação. Que, e a OMS garante através de estudos sérios, é segura – explica a médica Angélica Nogueira, da direção da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

HPV causa câncer:

  • Na mulheres
  1. Colo de útero
  2. Vagina
  3. Vulva
  4. Orofaringe
  5. Canal anal
  • Nos homens:
  1. Pênis
  2. Orofaringe
  3. Canal anal

O HPV é transmitido principalmente por contato sexual, por isso o ideal é que a vacinação seja feita antes do início da vida sexual. Mas ela também pode e deve ser feita por homens e mulheres sexualmente ativos. Existem mais de 150 tipos de HPV, 14 deles identificados como cancerígenos. Juntos, eles causam 90% dos casos de câncer de colo de útero no mundo, sendo os de tipo 16 e 18 responsáveis por 70% deles. Eles também são responsáveis por em torno de 90% dos casos de câncer de ânus, até 60% dos casos de câncer de vagina e até 50% dos casos de câncer de vulva. Os cânceres de boca e de garganta, que apresentam 400 mil casos novos e 230 mil mortes ao ano, são o sexto tipo no mundo, e também estão relacionados ao HPV (por conta da prática de sexo oral). A vacina hoje em dia também inclui os subtipos 6 e 11, que não causam câncer, mas são responsáveis pela maioria das verrugas genitais (ou condilomas genitais) e papilomas laríngeos.

– Outro dado importante desse estudo inglês é que não houve aumento da incidência de outros tipos de HPV com a diminuição dos casos dos tipos 16 e 18. Mais importante, eles falam em uma proteção cruzada: a vacina reduziria os casos de outros tipos de HPV também cancerígenos – analisa Angélica.

Meninos também devem se vacinar contra o HPV — Foto: Istock Getty ImagesMeninos também devem se vacinar contra o HPV — Foto: Istock Getty Images

Meninos também devem se vacinar contra o HPV — Foto: Istock Getty Images

No Brasil

No Brasil, o câncer de colo de útero é o terceiro mais frequente entre mulheres, atrás do de mama e do colorretal, e a quarta causa de morte entre elas, responsável por 16.370 casos novos em 2018 e 5.700 mortes, segundo estimativa no instituto Nacional do Câncer (INCA). O calendário de vacinação do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde passou a incluir a vacina contra ao HPV em 2014, disponível no Sistema Único de Saúde para meninas entre 9 e 14 anos e meninos entre 11 e 14 anos. No entanto, enquanto na Inglaterra há uma cobertura vacinal de 83,9% do público-alvo, no Brasil apenas 52% das meninas de 9 a 14 anos completaram o esquema de vacinação de HPV em 2018. Entre os meninos, o cenário é ainda pior: somente 22% dos garotos de 11 a 14 receberam a imunização para papilomavírus.

– A OMS tem como objetivo a eliminação do câncer de colo de útero em 10 anos. Mas, para isso, é necessária uma cobertura vacinal de cerca de 90%. A que temos hoje é insuficiente – avalia Angélica, lembrando que a eliminação implica em manter os números de casos da doença em quatro para cada 100 mil mulheres. – Hoje, no Brasil, são 16 para cem mil. É muito alto. É importante que os meninos também sejam vacinados, porque eles são atingidos por três dos seis tipos de câncer que o HPV causa: de pênis, anal e de orofaringe. Além disso, eles são transmissores do HPV para as mulheres.

A médica conta que no primeiro ano da imunização contra papilomavírus no país, em 2014, a cobertura foi de mais de 90%. No ano seguinte, já caiu quase 25%, até chegar aos dados atuais. O motivo, segundo ela, é multifatorial.

– Em primeiro lugar, o problema foi tirar a vacinação da escola. Naquele primeiro ano, o esquema de imunização foi feito dentro das escolas, e a partir de 2015 foi para os postos de saúde. Que funcionam muito bem com bebês e na primeira infância, mas infelizmente não temos o hábito de levar os adolescentes aos postos. Então o ideal seria voltar a ter vacinação na escola ou haver uma obrigatoriedade de apresentar o cartão de vacinação completo no ato da matrícula. Além disso, houve uma grande influência das fake news sobre a vacina, de que ela causaria desmaios e problemas motores e deixaria sequelas. Não causa. Por fim, há as barreiras culturais: houve a disseminação da informação de que vacinar contra o HPV levaria as meninas a iniciarem a vida sexual mais precocemente. O que também é uma inverdade, não há nenhuma relação entre as duas coisas – esclarece a médica.

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